terça-feira, 29 de setembro de 2015

A importância do lúdico na aprendizagem


                              Até pouco tempo, os pequenos das creches passavam o dia alimentados e limpos, cada um seguro em seu berço. E só. Já aos maiores, da pré-escola, era propostas atividades, como colar bolinhas de papel em atividades mimeografadas. Hoje já não se admite uma Educação Infantil nesses moldes e o motivo é simples: existem referências de práticas pedagógicas que respeitam as características das faixas etárias, e assim, promovem o desenvolvimento das turmas de até 6 anos.
             Embora a brincadeira seja uma atividade livre e espontânea, ela não é natural, mas uma criação da cultura. O aprendizado dela se dá por meio das interações e do convívio com os outros. Por isso, a importância de prever muito tempo e espaço para ela. Nessa fase há uma ampliação do universo de informações: a mamãe é vendedora, o papai é motorista, o herói preferido voa, o livro de histórias fala de uma princesa bonita e corajosa. O meio de processar e assimilar tantos assuntos – enfim entender o mundo – é brincar de faz-de-conta. A complexidade da fantasia criada depende das experiências já vividas. Por isso, é fundamental oferecer ambientes ricos em possibilidades.
                As crianças ainda se divertem com os brinquedos de encaixar ou no parque, mas na pré-escola ganham destaque os jogos e regras – que exigem cumprimento de normas, concentração e raciocínio – e, principalmente, os simbólicos, em que se assumem papéis. Elas se apropriam dos elementos da realidade e dão a eles novos significados. Por meio da fantasia, aprendem sobre cultura. Ao dar bronca em uma boneca, por exemplo, os pequenos usam frases ouvidas de diálogos de adultos, da TV e em especial de livros de histórias.

                A meninada vai se tornando capaz de interagir com as brincadeiras por um tempo maior e considerar que os outros podem participar também. No faz-de-conta acontece algo íntimo que não se deve atropelar. O professor contribui com um gesto, uma palavra ou um brinquedo, mas a turma é livre para aceitar ou não. Uma boa estratégia para enriquecer o brincar é atrair a garotada para espaços diferenciados, como o canto da casinha, do salão de maquiagem, da mecânica ou da biblioteca. O cenário, por si só, avisa a proposta da brincadeira e pressupõe papéis. Depois com tempo, o grupo mesmo produzirá outros.
                O lúdico é uma linguagem expressiva que possibilita conhecimento de si, do outro, da cultura e do mundo, sendo um espaço genuíno de aprendizagens significativas. De acordo com o pensamento de Piaget (1996), as crianças só são livres quando brincam entre si, ocasião em que criam e desenvolvem sua autonomia, sendo outra criança o melhor brinquedo didático que elas podem explorar. Complementando essa premissa com as de Vygotsky (2003), o brincar também funciona como agente de socialização, um balizador das relações humanas.
O brincar requer imaginação criativa, apropriação de normas de comportamento e de vida em grupo. Nesse sentido, o educador deve ter consciência das características desses aspectos na sociedade a que pertence e conhecer as fases que caracterizam a evolução cognitiva e afetiva das crianças em relação ao brincar em diferentes concepções teóricas para poder elaborar intervenções adequadas junto ao seu grupo de trabalho.
O brincar é a atividade própria da infância, o meio de estar diante do mundo social e físico, a maneira como a criança interage com objetos e pessoas, lida com seus conflitos e questionamentos: ela tem o direito de brincar, enquanto o educador tem o dever de possibilitar o exercício desse direito, assegurando seus sonhos e o prazer de conviver com as pessoas. A brincadeira serve para provar experiências, múltiplos movimentos e sensações, que viabilizam a vivência de determinadas situações com segurança, sendo um simulacro da realidade (Vygotsky, 2003). Cabe ainda destacar a importância da interação com a natureza, da constituição de vínculos afetivos entre sujeitos e seu espaço, sensibilizando-se com o ambiente e sentindo-se pertencente a ele (Bronfenbrenner, 1996).
Oferecer às crianças oportunidade de viver diferentes papéis contribui para a construção da identidade, tema a ser trabalhado no dia-a-dia e não necessariamente em um projeto específico. Que professor de Educação Infantil nunca se deparou com meninas que gostam de jogar futebol e meninos que preferem uma boneca a um carrinho? A situação pode ser comum, mas a atitude tomada pelos educadores diante dela varia bastante.
Os pequenos não estão nem um pouco preocupados com as regras que definem papéis diferentes para eles ou elas. O que querem é se divertir! Por sinal, Ate os três anos, em média, as crianças não encaram as características biológicas como diferenças. Trabalhar esses padrões e expectativas é função do professor porque disso depende também a construção da identidade dos pequenos. A brincadeira é uma representação da vida. Por meio dela, as crianças dão sentido às experiências por que passam e reproduzem sua relação com as pessoas ao redor.
Concebemos a criança como um ser social e histórico, que faz parte de uma organização familiar inserida em uma sociedade, onde a construção do seu conhecimento está amparada na incorporação de jogos e brincadeiras nas práticas pedagógicas que venham a contribuir para as inúmeras aprendizagens e para a ampliação da rede de significados construídos por eles. Logo a Educação Infantil tem um papel fundamental na organização e no planejamento de condições para o desenvolvimento da aprendizagem no processo de brincar.
Segundo Vital Didonet, é uma verdade que o brinquedo é apenas o suporte do jogo, do brincar e que é possível brincar com a imaginação. Mas é verdade também, que sem brinquedo é muito mais difícil realizar atividade lúdica, porque é ele que permite simular situações (...) se a criança gosta de brincar, gosta também de brinquedo, porque as duas coisas estão intrinsecamente ligadas.
Para Vygotsky os jogos e as brincadeiras são por si só uma situação de aprendizagem, porque no jogo há vitória, derrota e empate, por isso é uma situação de aprendizagem, onde as regras e a imaginação favorecem à criança comportamentos além dos habituais. O educando se torna espontâneo e criativo.
Segundo Bettheim “brincar é muito importante porque enquanto estimula o desenvolvimento intelectual da criança também ensina os hábitos necessários ao seu crescimento” (1998, p. 168). Afirma Piaget, “os jogos constituem-se de admiráveis construções sociais por meio deles o ser humano exercita a autonomia e a cidadania, pois aprendem a julgar, a argumentar, a chegar a um consenso, a raciocinar”. Claparède “nada mais sério que uma criança brincando”. João Luiz “se a vida é um jogo e pode se transformar em brincadeira, porque não viver brincando e aprender com a brincadeira?”. Alex Leontiev (1988) afirma que ”é na atividade lúdica que o educando desenvolve sua habilidade de subordinar-se a uma regra mesmo quando um estímulo direto o impede de fazer algo diferente”.
Segundo Celso Antunes, a brincadeira favorece a auto-estima, a interação com seus pares e, sobretudo a linguagem interrogativa, propiciando situações de aprendizagem que desafiam seus saberes estabelecidos, destes fazem elementos para novos esquemas de cognição.
Logo a instituição de Educação Infantil enquanto instância social tem a função de despertar o interesse das crianças pela aquisição de novos conhecimentos, os quais serão adquiridos de forma lúdica e prazerosa por meio de brincadeiras.
Uma das metas do trabalho com as crianças na escola deve ser a formação de um ambiente propício para o desenvolvimento de uma criança atuante, criativa e interessada em aprender.
Trabalhar com jogos junto às crianças favorece que princípios básicos característicos das aprendizagens nessa etapa da vida possam ser garantidos. Os jogos as convidam a uma participação ativa em suas experiências, pois, ao jogar, as crianças exploram, perguntam e refletem sobre a realidade e suas formas culturais nas quais vivem, desenvolvendo-se psicológica e socialmente.
Favorecer situações de jogo que apresentem às crianças oportunidades de novas descobertas e incentivem a criatividade pessoal, ainda que apoiadas na ajuda do professor colabora para que se tornem mais independentes em seus pensamentos e ações. Além disso, são excelentes oportunidades de interação com outras crianças e adultos, contribuindo para a aprendizagem de habilidades, princípios e valores sociais.
Mesmo se mostrando tão significativo na aprendizagem das crianças, o uso de jogos nas escolas ainda é pequeno, contrariando estudos recentes na área da psicologia que apresentam o jogo como uma ação que, do ponto de vista da criança, é séria e pode trazer benefícios para o seu desenvolvimento integral.
A brincadeira de faz-de-conta das crianças é um jogo simbólico ou de representação e caracteriza-se como uma atividade na qual elas interpretam a realidade a partir de diferentes pontos de vista, criando novos contextos por meio da utilização de signos e símbolos. À medida que brincam, atribuem sentidos e funções aos objetos. Essa atividade lúdica, característica da infância, é a primeira forma que as crianças têm de representar o mundo.
Os conteúdos dessa brincadeira são, com freqüência, as relações sociais e todo o universo simbólico da humanidade. Assim, ao brincar, as crianças têm a oportunidade de se apropriar da cultura, refletindo sobre o mundo social, sobre si mesmas e sobre as relações. Podem aprender, de maneira significativa, sobre a vida, as pessoas, as situações de interações, como a sociedade funciona e qual o papel dos diferentes indivíduos dentro dela.
Ao experimentar os desafios inerentes ao próprio brincar, as crianças podem aprender a lidar com questões sociais como solidão, desamparo, solidariedade, cooperação etc. Brincar de faz-de-conta funciona como um recurso para que as crianças acomodem e entendam dimensões mais subjetivas de sua experiência de vida.
Na escola torna-se, portanto, fundamental que o professor invista tempo e espaço para que as crianças possam brincar livremente e passem a valorizar o seu próprio brincar e aprender com ele. É papel do professor ampliar a brincadeira, assim como legitimá-la. Algumas características podem ser observadas na brincadeira de faz-de-conta e ajudam a compreender melhor essa atividade.
Ao fazer de conta, as crianças colocam em ação uma atividade que se situa entre a realidade e a fantasia: criam uma situação imaginária em que assumem papéis e dão diferentes significados aos brinquedos e objetos disponíveis.
Quando representam em suas brincadeiras, as crianças sabem que não estão atuando na vida real e que, por conseqüência, seus atos não geram resultados reais. É possível observar isto nas ações que extrapolam o limite do faz-de-conta – por exemplo, quando brincam de luta e algum participante acaba se machucando. Imediatamente interrompem a brincadeira, e aquele que se machucou diz: “Eu não quero mais brincar, me machuquei”. Quando brincam de faz-de-conta, as crianças compartilham uma situação imaginária. Para que possam brincar juntas, precisa compactuar essa situação. Para isso, usam diferentes formas de linguagem verbal e não verbal.
A brincadeira representa para a criança um meio de comunicação e prazer que ela domina ou exerce em razão de sua própria iniciativa. Ao brincar, a criança não está preocupada com os resultados de suas ações. São justamente o prazer e a motivação pessoal que dão origem às ações e explorações que realizam ao longo da brincadeira.
Ao brincar, as crianças colocam em ação aquilo que conhecem sobre o contexto e as relações sociais e, por meio das explorações e experimentações que fazem, têm a oportunidade de construir e desenvolver novos conhecimentos e competências.
Mesmo valorizando a importância da ação livre e iniciada pelas crianças em suas brincadeiras, para que elas possam avançar em seus conhecimentos e em seu saber fazer, é fundamental que a escola enriqueça o acervo cultural ao qual tem acesso, criando um ambiente que estimule e oriente suas ações.
A brincadeira de faz-de-conta funciona, portanto, como um laboratório das crianças, no qual exploram materiais, idéias e relações, sem as pressões que o mundo real traz. A ação intencional do professor – observando, mediando, atuando, orientando e realizando atividades – favorece que as crianças transformem muitos dos conteúdos que trazem para a brincadeira em conhecimentos culturais que contribuem para sua formação não só escolar, mas pessoal e social.
A intervenção do adulto é fundamental para favorecer uma elaboração mais complexa dos conteúdos que aparecem no brincar da criança. Representa uma oportunidade para que ela experimente diferentes formas de pensamento, linguagem e fantasia. É importante, portanto, que a escola não incentive apenas a espontaneidade, mas assuma seu papel no auxílio à construção desses conhecimentos.
Como foi possível constatar, são muitas as aprendizagens que a brincadeira pode favorecer, entre elas, o aprendizado da linguagem. A capacidade da criança de levar uma brincadeira adiante é, sobretudo, uma questão de comunicação: ao brincar, as crianças se comunicam. A brincadeira é, portanto, um lugar de comunicação e, conseqüentemente, de linguagem.
Ao brincar a criança aprende a utilizar o substituto dos objetos, dando a eles um novo nome e atribuindo-lhes um novo significado. Essa aprendizagem permite que ela pense e conheça o objeto no plano mental. Tanto os objetos quanto as ações substitutas passam a ser suportes para o pensamento, cujos novos significados orientam suas ações na brincadeira.
Para assumir um papel na brincadeira, a criança deve conhecer algumas de suas características e respeitar as regras fundamentais que o definem e, ao brincar, ela pode transformar esses conhecimentos que já possuía em conceitos gerais ou estereótipos com os quais brinca.
Através da brincadeira de criar e vivenciar brincadeiras imaginativas, as crianças podem acionar seu pensamento para resolver problemas que para eles são importantes e significativos, como por exemplo, juntamente com seus colegas, ter de decidir se poderá existir na brincadeira mais de um pai ou de uma mãe.
Ao brincar, as crianças repetem, através de imitações, aquilo que já conhecem. Ativando sua memória, transformam os seus conhecimentos por meio da criação de uma situação imaginária nova. Na brincadeira, a criança amadurece algumas competências para a vida coletiva, através da interação e da utilização e experimento das regras e papéis sociais.
O uso dos jogos lúdicos auxilia o aluno na construção da aprendizagem, pois permite que a criança experimente vivências em três áreas: cognitiva, afetiva e psicomotora. O professor utiliza esse instrumento com a finalidade de tornar as aulas mais dinâmicas e atraentes, proporcionando aos alunos sucesso no processo de ensino-aprendizagem.
Nos primeiros anos de vida, a criança está se autodescobrindo e o ambiente que as cerca, agindo e interagindo a todo o momento sobre o jogo, utilizado como meio de expressão de suas ansiedades, emoções e afetos.
O lúdico contribui de forma significativa para o desenvolvimento do ser humano, de qualquer idade, auxiliando na aprendizagem, no desenvolvimento social, pessoal e cultural, facilitando no processo de socialização, comunicação, expressão e construção do pensamento. O lúdico não é o único instrumento para a melhoria do ensino-aprendizagem, mas é uma ponte que auxilia na melhoria dos resultados por parte dos educadores interessados em proporcionar mudanças.

Eulina Castro de Souza

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